Entenda o quociente eleitoral: por que votação alta nem sempre garante vaga na Câmara
Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados (CC BY 3.0)
A eleição para deputado federal no Brasil segue o sistema proporcional. Isso significa que o resultado não depende só do total de votos de cada candidato, mas também do desempenho do partido ou da federação partidária à qual ele pertence.
O primeiro número que define o jogo é o quociente eleitoral. Ele é calculado dividindo o total de votos válidos do estado pelo número de cadeiras em disputa. Em Minas Gerais, os votos válidos para deputado federal em 2026 somaram 11.380.151, divididos pelas 53 vagas do estado. Isso resulta em um quociente eleitoral de aproximadamente 214,7 mil votos por cadeira.
A partir daí, cada partido ou federação tem seu quociente partidário calculado: o total de votos que recebeu, somando os votos dos candidatos e os de legenda, dividido pelo quociente eleitoral. Esse número indica quantas cadeiras aquele partido conquista diretamente. As vagas que sobram são distribuídas depois, pelo método das médias, entre as legendas que tiveram desempenho suficiente para disputar essa segunda rodada.
O caso de Nikolas Ferreira (PL) mostra bem como isso funciona na prática. Ele recebeu 3.119.281 votos em Minas Gerais, 27,41% de todos os votos válidos para deputado federal no estado, um recorde histórico no Brasil. Essa votação elevou sozinha o quociente partidário do PL a um patamar tão alto que o partido elegeu 21 deputados em Minas, a maior bancada entre todas as legendas, puxando para a Câmara nomes com votação individual bem mais modesta.
Um exemplo direto dessa dinâmica é Sargento Mello-Casal, do próprio PL, eleito com 25.090 votos, o menor número entre os deputados eleitos pela legenda em Minas Gerais.
Já Mário Heringer (PDT) recebeu 75.782 votos no estado, três vezes mais que Sargento Mello-Casal, e ficou na 39ª posição entre todos os candidatos a deputado federal em Minas Gerais, à frente de diversos nomes que acabaram eleitos. Ainda assim, não conquistou uma cadeira. O PDT não teve desempenho suficiente para garantir vaga em 2026, perdendo a única cadeira que tinha no estado.
O caso ilustra como o sistema proporcional funciona na prática: a força de um candidato individual sempre caminha junto com o desempenho da legenda à qual ele está filiado. Um partido forte, como o PL em 2026, pode levar à Câmara candidatos com votação relativamente baixa. Já um candidato com votação expressiva, mas filiado a uma legenda sem força suficiente, pode ficar de fora mesmo superando concorrentes eleitos.